A mulher que eu me tornei

... e que deseja pra sim um dia todos os dias

Mulher

Me orgulho por ter ido sozinha para a maternidade, gritando no taxi, como nos filmes; por ter ficado 4 dias em trabalho de parto; por ter parido numa cesariana; por ter amamentado muito menos do que gostaria; por conhecer minha cria pelo olhar, mas ser surpreendida por ela todos os dias; por ter forças para estar com ela em nossos piores momentos; por ter sempre um sorriso e um abraço, quando ela precisa, assim como um berro, um olhar de reprovação ou um verdadeiro barraco materno; por achar que tenho o direito de fazer uma refeição tranquila e dizer “aguarde, sua mãe está jantando”; por esquecer de passar repelente na criança ou de colocar a garrafa de água na mochila da escola; por muitas vezes simplesmente não saber o que fazer com ela, o que dizer, que caminho seguir; por admitir pra minha filha o óbvio, sem o menor pudor: sua mãe não é perfeita.

Me orgulho por pedir ajuda; por ter babá; por fazer terapia; por não ser a dona de casa que o marido sonhou; por precisar de receita para bater um bolo; por não ter força (nem jeito) para trocar pneu de carro; por não estar sempre maquiada e nem de unhas feitas; por optar por dormir, ao invés de manter os guarda-roupas impecáveis; por ter um significativo percentual de gordura corporal; por comer os brigadeiros que quero e, em ato contínuo, correr 5k e pensar em crioterapia; por chorar de emoção umas 397293592359 vezes ao dia.

Me orgulho por ter tido um sabático antes dos quarenta anos; por ter transformado uma perseguição no ambiente de trabalho (protagonizada por outra mulher, vejam só) em um recomeço; por poder prover a minha família e a mim; por ter amigos que me estendem a mão na alegria e na tristeza; por ter medo (de morrer enquanto minha filha precisa de mim, barata, dentre vários outros); por considerar que fazer algo “como uma mulher” é o maior dos elogios.

Me orgulho por precisar, sim, do meu marido; por ter a minha felicidade totalmente atrelada a dele; por espera-lo para almoçar, para jantar; por pergunta-lo o que fazer com o dinheiro que ganhei; por ele ser a calmaria na minha tempestade e a força na minha fragilidade.

Me orgulho por saber que em muitos momentos a vida teria sido imensamente mais fácil se eu fosse homem, mas sobretudo por acreditar que este texto não fará o menor sentido para as mulheres da geração da minha filha.

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