Escolher é perder sempre

Jô Soares dá adeus a Rafinha, o seu menino de 50 anos

Quando um filho chega, quando um filho se vai… Somos todos iguais.
Jô deu adeus ao Rafinha na abertura do seu programa com admirável força interior. Vejam quanto amor, quanta delicadeza… E quanta dor.

Jô e Rafa

“O Rafinha esteve no mundo durante 50 anos e foi uma criança especial. Como ele era autista, permaneceu comigo até o fim. Passou a vida inteira na realidade do seu próprio mundo. Um corpo de adulto; coração e alma de criança.
Tinha ouvido absoluto, por isso tocou piano. Adorava música, mas sua grande paixão era o rádio. Tinha a sua própria emissora em casa, cujo alcance eram as pessoas que o visitavam. O Derico, numa prova singela de amizade, fez várias vinhetas para a programação fechada da emissora do Rafa.
Mesmo operando em casa, nem por isso ele deixava de ser um DJ muito competente. Trocava experiências e conhecimentos com o radialista Roberto Canázio, da Rádio Globo do Rio. Seu amigo, que ele adorava e que era adorado de volta. Ele chamava de “colega”.
O Canázio dizia que o Rafa era um profissional totalmente dedicado, com horários rigorosos. Nos seus aniversários ele não tirava a emissora do ar nem na hora de soprar as velas do bolo.
Ele dizia: – Não pode! Está na hora! São 06:02 (que eram aqueles horários que o autista tem, de uma precisão absoluta).
E essa disposição de viver com entusiasmo e até com paixão esse caminho limitado que a vida lhe ofereceu me dá muito orgulho do meu filho.
Eu gostaria de dedicar esta abertura de hoje a ele e à Tereza, sua mãe, que foi minha companheira por 20 anos, que por 50 anos dedicou a sua vida ao nosso filhinho, o acompanhando desde o berço até o fim.
(…)
Eu queria contar uma história, que dá uma ideia das coisas que eu aprendi com o Rafinha.
Uma vez, numa livraria, ele chegou junto ao caixa carregando uma duzia de livros.
Eu estranhei. Falei:
– Rafa, espera aí. É muito! Doze, não. Escolhe seis.
Ele falou:
– Não. Então não quero nenhum.
Eu pensei que fosse mal criação e disse:
– Como não quer nenhum?
– Eu prefiro não escolher.
– Mas por que?
– Porque escolher é perder sempre.

Hoje eu também não preciso escolher. Como ele nunca faltou ao seu trabalho, também não posso faltar ao meu.

Um beijo para todos vocês e para o meu querido Rafa”.

 

***

 

Bianca

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