Sua filha anda?

Como na UTI o dia dura 48 horas e a noite outras 72 horas, esta mãe acompanhante tem aproximadamente 120 horas/dia, desde a última terça, para pensar (tanto o que presta quanto o que constitui mero desserviço à existência).

Na última sexta Vivi fez seu passeio preferido, que segundo ela consiste em “Í PU MÁ”.

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Hoje ela está na UTI, por conta de uma pneumonia somada à infelizmente já tradicional asma. A vida da gente: ô coisinha pra mudar rápido.

imageUma palavra que definia esta mãe: tristeza. Eu estava arrasada, devastada, pássaros feridos, porque a minha menininha está passando pela terceira internação em UTI em dois aninhos de vida. Sem falar na culpa. Porque em momentos assim falta racionalidade e claro que a culpa pelas zicas pulmonares é minha (mesmo que 50% da menina tenha vindo do pai, que por acaso passou boa parte da infância pondo a mãe louca por conta de sucessivas crises de asma). Lá ele, meu inconsciente se manifestando e culpando o pobre do pai…

Ninguém tem culpa. A Vivi é (ou está, espero eu) assim e pai e mãe são pra isso mesmo: cuidar.

Pela primeira vez em nossa vida hospitalar temos vizinhos: um menino de 13 anos que chegou aqui ontem à noite após uma cirurgia na coluna e sua mãe.

Hoje pela manhã, enquanto Vivi tentava colocar o mundo abaixo durante a fisioterapia respiratória e eu tentava sem sucesso segura-la (ela não sabe que debater-se não é uma boa providência quando se tem uma agulha no pulso, um cateter no nariz e um monitor de saturação no pé), a mãe do menino veio me oferecer ajuda.

Mas vejam bem… Não foi uma simples oferta de ajuda. Ela carinhosamente segurou a cabeça da Vivi, alisou os cabelinhos suados dela e a acalmou, junto comigo.

Aí fomos nos conhecer, né? Ela contou um pouco da história do filho (que em outro momento vou contar pra vocês) e me perguntou: sua filha anda? Ela não perguntou qual o nome da Vivi nem por que motivo ela estava internada. Ela perguntou se a minha filha andava.

Enquanto eu pensava “claro que anda”, pensei também que isso de “claro que anda” não existe. Enquanto milhares de mães esperam pelos primeiros passos do bebê, outras milhares têm bebês que não vão andar.

A minha tristeza profunda passou (me restou um pouquinho, porque sou humana e super master imperfeita), porque não tenho o direito de fazer uma reclamaçãozinha sequer sobre a saúde da Vivi. Posso chorar e desejar que tudo fosse comigo; também posso ficar de coração partido e com medo que algo aconteça com ela.

Mas o que estamos enfrentando não é meio por cento do que a família nossa vizinha enfrenta. Também é quase nada quando comparado ao que passa uma outra família, cuja filha MORA aqui. E é muito pouco quando comparado ao que o neto (que não anda) de uma vovózinha com a qual fiquei conversando na recepção tem que administrar.

Não que exista uma escala de fardos e dificuldades. O que é insuportável pra um é ordinário para o outro.

Minha filha anda. Mas não é “claro que anda”. É “graças a Deus ela anda”.

Bianca.

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